Chego da praia, sento-me para escrever, e nd acontece. N sei o que escrever. N sei por onde comecar. N quero parecer demasiado isto ou soar demasiado aquilo. Repenso a motivacao q aki me coloca: jogar c/ a transparencia de ideias e sensaçoes associadas a uma experiencia partilhada. Preocupo-me em atingir um denominador comum s/ cair num registo demasiado confessional. N quero dissecar o coracao. Estou mais interessado em extrair-lhe a metafora, arteria a arteria, organizar mentalmente os fluxos sanguineos s/ q as palavras se tornem, para os q leem, demasiado opacas ou, para mim, demasiado transparentes.
Entre uma e outra tendencia, perdem-se muitas oportunidades de dizer o q vai na alma de mtas outras. e' do meu entendimento q, se muitas almas fossem questionadas a proposito da sua sensibilidade marinha, mtas almas chegariam a um, complexo ms um so, corolario: o mar e' uma imensa planicie sinestetica. O som de uma onda invoca a linha por ela desenhada ou o espaço oco aleatoriamente surgido e, por breves instantes, habitado. As diferentes maresias despoletam diferentes estados mentais. Ainda 'a distancia, ao primeiro sentir do mar, o viajante reconhece a fragancia de outras latitudes e o surfista local celebra o eterno retorno. Pode acontecer agr ou existir dps. Agr sera apenas o pulsar da vida, dps sera a lonjura de uma memoria. Compressao e dispersao. A experiencia articula-se em diferentes momentos no tempo. e' estruturada pela nossa capacidade de viver e recordar, ms tb pela incapacidade de condensar todos os estimulos que recebemos dentro de agua. Por isso, e' quase inevitavel q as palavras escritas acerca do mar n sejam mais q uma pobre sintese do q nos vai na alma, camada removivel do sal 'a superficie da pele, escondendo vias de comunicacao que hierarquizam todos os instantes de todas as alvoradas e crepusculos passados a flutuar, 'a espera de deslizar, cortar, abrandar, parar, flutuar novamente, e voltar a remar. E assim devolve o oceano esta criatura energica 'a etapa inicial de um jogo de paciencia que nos ensina a esperar. A cadencia oceanica assim exige.
Sem que nd disto tenha qualquer relevancia no instante em q dizemos da proxima onda ser nossa, o aqui-e-agora reproduz, como nos nossos movimentos dentro de agua, as mudancas de velocidade do sangue nas arterias. Vias ordeiras num momento, congestionadas lgo depois. Ciclos de refinacao da alma, ao longo das quais se apuram vidas e, no meu caso, se encontram razoes para partilhar o q entendo ser comum a muitas almas e esconder o que receio n ser capaz de explicar.